Edição nº 998; ano 23; 3ª semana de Novembro/2009.
Nosferatus empreende mais uma pesada (e dificílima) retomada.
JOSÉ MARTINS
Uma política monetária e fiscal bem aplicada pode ser muito útil para prorrogar a eclosão de uma grande depressão. Mas é insuficiente para a superação da crise e retomada de um novo ciclo de expansão. Um novo período de expansão, não dá para fugir, necessita de um descomunal aumento da produtividade (exploração) da força de trabalho global.
Em direção à edição nº 1000 da Crítica, não são poucos os obstáculos a uma livre investigação. Nesta nossa nada mole vida de acompanhar na lupa as características comuns de cada ciclo econômico, somos atropelados continuamente pelas suas características distintivas. São estas últimas que dão vida para o ciclo e atualidade para a análise. Esse é o lado positivo da história. O problema é que essas distintas criaturas são as mais difíceis de serem esclarecidas. Mas esta dificuldade está presente em todos os ramos da ciência.
Na última terça-feira, 17, por exemplo, foi divulgado o aguardado relatório do Federal Reserve (Fed) sobre a produção industrial e utilização da capacidade no mês de Outubro/2009. Os resultados apontam para inesperada baixa da pressão sanguínea, quer dizer, da produção de valor e de mais-valia no coração do sistema. Não é por acaso que Bernanke, presidente do Fed, continua garantindo que a taxa básica de juros dos EUA ainda vai permanecer próxima de zero por muito tempo.
DUPLO MERGULHO? – No Japão, a situação também está complicando. Na sexta-feira, 20, a Agência Reuters/Estado noticia que “O governo do Japão declarou oficialmente nesta sexta-feira, 20, que o país entrou em deflação, e alertou que as continuas quedas de preço podem trazer problemas para a nascente recuperação econômica... Essa é a primeira vez desde meados de 2006 que as autoridades dizem que o Japão está acometido por persistentes quedas de preços, que podem prejudicar a economia porque derrubam o lucro das empresas e aumentam o peso das suas dívidas. Isso leva os administradores das companhias a reduzir a força de trabalho e a adiar os investimentos. A declaração no relatório oficial sugere o temor do governo de que a queda dos preços provoque uma recessão de duplo mergulho.”
Concretamente, nesta atual quadratura do ciclo, último trimestre de 2009, o que se procura responder é o seguinte: qual a probabilidade do atual movimento de recuperação da crise reverter-se subitamente em um “duplo-mergulho”, quer dizer, um formidável retorno, maravilhosamente ainda mais agudo, das condições de crise da virada de 2008 para 2009, como é sugerido no relatório do governo japonês?
AINDA AS VARIÁVEIS COMUNS – Ilustremos esse processo com importantes fatos recentemente acontecidos. Continuemos ruminando, pacientemente, as mais importantes características comuns dos ciclos econômicos. Sem pressa. Sem perder o rumo. É porque cultivamos essa paciência que estamos chegando inteiros à edição 1000 do boletim.
Em nosso último boletim, relembrando, percorremos pela floresta da recuperação da indústria dos Estados Unidos. E o que descobrimos? Indícios muito claros de que a evolução recente da produção industrial na economia que regula a dinâmica do mercado mundial indica o fim do período de crise iniciado no 1º trimestre de 2008 e encerrado na virada do 2º para o 3º trimestre de 2009.
Aquele repentino e acentuado aumento da produção industrial (massa de valor agregado) depois de aproximadamente vinte meses de queda é uma característica comum a todas as recuperações cíclicas da economia capitalista. Do mesmo modo, pode-se acrescentar, o também repentino e acentuado aumento da produtividade da força de trabalho ocorrido no mesmo período.
Em todas as recuperações cíclicas da economia capitalista o aumento da massa de mais-valia com relação ao ciclo anterior deve ser acompanhado pelo correspondente aumento da taxa de mais-valia. Isso foi confirmado pelo mais recente relatório trimestral do Bureau of Labor Statistics (BLS) sobre produtividade e custos na economia dos EUA.1 Vamos aos números.
NOSFERATUS GLOBAL – Os técnicos do BLS destacam inicialmente que “a produtividade das manufaturas (duráveis e não-duráveis) dos EUA cresceu 13.6% no terceiro trimestre de 2009, enquanto a produção (output) cresceu 7.7%, a despeito de uma diminuição de 5.2% nas horas trabalhadas. Este foi o maior incremento nas séries de produtividade trimestrais, desde que essas séries começaram a ser apuradas”, é afirmado textualmente no relatório.
Aumento simultâneo da produção, da produtividade e do desemprego (que nos números do relatório aparece como diminuição das horas trabalhadas). Quer dizer, assiste-se atualmente na indústria mundial – que deve necessariamente seguir o ritmo da indústria reguladora dos EUA – a uma elevação recorde da exploração da classe operária.
Nas tabelas do relatório pode-se verificar também que esse aumento da taxa de produtividade (ou de exploração) da classe operária mundial alcançou os níveis mais elevados nos ramos produtores de bens duráveis, o núcleo mais importante da produção capitalista. No 3º trimestre de 2009, observa-se expansão a taxas anualizadas de 12.4% da produção (output) e de 21.2% da produtividade (output per hour).
Para comparar, a produção tinha caído 31.6% no 1º trimestre, e continuava caindo 15.9% no 2º trimestre deste ano. A produtividade tinha caído 10.5% e aumentado 3.7% naqueles dois primeiros trimestres do ano.
E o custo unitário do trabalho, uma medida que representa melhor a taxa de exploração (ou de produtividade), que crescera 2.5% no 1º trimestre deste ano, começou a declinar (-1.6%) no 2º trimestre para, finalmente, desabar em assombrosos 7.1% no 3º trimestre.
Isso que está acontecendo atualmente no laboratório secreto da produção global é muito grave para as condições de existência da classe trabalhadora. Esses números ilustram não apenas as condições materiais da possível recuperação da economia capitalista, mas, principalmente, a profundidade da inevitável exploração aplicada pela classe capitalista sobre a classe operária para a efetivação daquela recuperação e início de um novo período de desenvolvimento sustentado do sistema global. O aprofundamento deste bombeamento de sangue da classe operária mundial global não é uma coisa simples para a governabilidade burguesa, quer dizer, para a manutenção da ordem social no interior das nações e da ordem geopolítica nas relações internacionais.
Portanto, a pergunta agora é a seguinte: será que esse nível recorde de aumento da produção de valor e de mais-valor sinalizado nos resultados do 3º trimestre de 2009 dos EUA já é suficiente para o capital global reencontrar o ponto de equilíbrio perdido na última crise, quer dizer, para uma recuperação sustentada e durável de três a quatro anos?
Todas as características distintivas do ciclo atual, que listamos no início do boletim, dizem que não. No próximo boletim trataremos com mais detalhes da relação destas distintas criaturas com aquelas mais comuns, que acabamos de ilustrar com os números da indústria dos EUA.
1 Bureau of Labor Statistics U.S. Department Of Labor – “Productivity and Costs – Third Quarter 2009” – 05 Novembro 2009, www.bls.gov/lpc
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