Crítica Semanal da Economia
ANO XXIII. nº 996; 1ª semana de Novembro/2009.
Dólar anêmico e cucarachas felizes.
JOSÉ MARTINS
Reunidos em 4 de Novembro de 2009, os dirigentes do banco central dos EUA (também conhecido como Fed) adotaram a inteligente decisão de manter inalterada a taxa básica de juros do planeta entre 0 e 0,25%. O que justifica a manutenção de taxa tão baixa? Na cabeça de Ben Bernanke, o presidente do Fed, o que conta é não bobear e não abrir a guarda da política monetária do império para uma catastrófica depressão econômica.
Nos anos 1860, Marx chamava de idiota Lorde Gladstone, então ministro da Fazenda da Inglaterra, por ter elevado a taxa de juros e provocado uma crise que poderia ter sido evitada. Para sorte dos capitalistas dos EUA – e de todos os parasitas do mundo, por extensão – Bernanke entende muito mais de economia e de crises do que Gladstone.
Nos anos 1860, Marx chamava de idiota Lorde Gladstone, então ministro da Fazenda da Inglaterra, por ter elevado a taxa de juros e provocado uma crise que poderia ter sido evitada. Para sorte dos capitalistas dos EUA – e de todos os parasitas do mundo, por extensão – Bernanke entende muito mais de economia e de crises do que Gladstone.
EXPORTANDO A CRISE - Na cabeça dos mais desconfiados com as boas intenções dos donos do mundo, entretanto, a medida do Fed de manter a taxa zero de juros faz parte de uma política norte-americana de exportar sua crise para o resto do mundo e salvar a pele dos seus falidos banqueiros de Wall Street. Faz parte de uma política imperialista de repartir as perdas e danos globais da crise entre os capitalistas das economias nacionais mais vulneráveis do sistema.
Essa desconfiança faz sentido, pois, enquanto se mantiver essa taxa zero de juros e, conseqüentemente, a política do “dólar fraco”, o planeta financeiro pode até continuar acumulando reservas em dólar, a assoprar bolhas e a lucrar muito com seus capitais fictícios nas bolsas de valores, nos mercados de commodities – petróleo, metais, ouro, etc. – mas logo chegará à casa de cada um pagar uma conta muito salgada por esse porre global do “dólar anêmico”. É um perigo que já assombra os capitalistas.1
Enquanto o Fed abarrota o mundo com essa torrente assombrosa de moeda-padrão de reserva internacional, que pode repentinamente virar um grande mico global – como ocorreu em 1971, com a decisão unilateral dos EUA de romper com a paridade dólar-ouro do tratado de Bretton Woods e causar o maior calote financeiro da história econômica mundial – se ganha tempo para estabilizar sua dívida interna e recompor o seu sistema financeiro que continua em situação pré-falimentar.
Neste processo de exportação da crise da maior economia do planeta para o resto do mundo, todas as economias nacionais continuam a sofrer uma incontrolável apreciação das suas moedas nacionais. Uma das conseqüências é que todas já estão a exportar menos e a importar mais bens e serviços dos EUA.
Mas essa distorção comercial não é o mais importante. O pior é que certas burguesias cucarachas, como a brasileira, que até pouco tempo se orgulhavam do crescimento das suas reservas internacionais, agora começam a se dar conta da armadilha em que foram metidas. Descobrem tardiamente que as festejadas reservas externas não passam de divida interna dos EUA metamorfoseada em dívida externa frente a todos os países do mundo. É a periferia que vai sentir mais fortemente o peso do ajuste financeiro global que se aproxima.
RESERVAS FURADAS - Os capitalistas das economias dominadas sempre se defrontam com um limite intransponível: a moeda-papel também é uma forma de dívida (a mais primária) de quem a emite. E, o mais importante, que nem todas as nações podem emiti-las como moeda conversível, quer dizer, trocáveis livremente no mercado mundial. Só as economias com crédito pré-aprovado internacionalmente têm essa prerrogativa.
É por isso que os capitalistas das economias dominantes não permitem que ridículas moedas nacionais como real (Brasil), yuan (China), rupia (Índia), rublo (Rússia), peso (México), etc., sejam admitidas e circulem no seu seleto sistema monetário e cambial internacional. As moedas das economias dominadas jamais serão moedas de reserva internacional.
Acontece que moeda e crédito são duas coisas inseparáveis. As economias dominadas não possuem sistemas nacionais de crédito suficientemente fortes para possuir moedas conversíveis. Tem sempre que ficar escoradas por alguma moeda de reserva internacional, as únicas que podem ser consideradas conversíveis, trocáveis livremente por outras moedas.
É por isso, também, que nas economias dominadas é preciso acumular tanta reserva internacional. E os cucarachas comemoram felizes volumes assombrosos dessas reservas que não servem para nada. Alguém sabe de alguma utilização produtiva das reservas internacionais?
As economias dominantes (com exceção da japonesa, para a qual não temos tempo agora de explicar) estocam reservas internacionais na faixa que nunca passa de 30 a 80 bilhões de dólares. No Brasil já se caminha para os 300 bilhões! Na China já passa de 2 trilhões! O resultado é que a taxa básica de juros nas economias dominantes (EUA, Eurozona e Japão) neste momento de luta contra a crise é zero e, no Brasil é de quase dez por cento.
As economias dominadas são obrigadas a conviver com um sistema de crédito nacional estruturalmente distorcido. Essa distorção própria de uma economia sem moeda conversível não desencoraja, entretanto, economistas cucarachas a fazerem demagogia e estuprar tanto a teoria quanto a prática monetária mundial. Essa irresponsabilidade não passou despercebida pelo esperto repórter do jornal Folha de S.Paulo: “O real, a moeda do século 21? O Brasil quer sua moeda como parte da cesta que, algum dia, substituirá o dólar como reserva internacional. Quase casualmente, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, deixa cair uma frase que pode soar excesso de ufanismo: o Brasil, diz o ministro, quer, sim, que sua moeda faça parte da cesta que algum dia, eventualmente, substituirá o dólar como moeda internacional de reserva. A Folha observa, obviamente, que, antes de que essa pretensão tenha alguma chance de materializar-se, seria preciso que o real fosse uma moeda conversível, dessas que você leva no bolso, chega a Nova York, Londres ou Tóquio, vai á casa de câmbio do aeroporto e troca pela moeda local. O ministro não se dá por vencido, nas atuais condições de pressão e temperatura, o Brasil é um grande negócio para investidores estrangeiros, que por isso mesmo deveriam ter o maior interesse em negociar com o real da mesma forma que fazem com as moedas conversíveis, que, aliás, nem são muitas” 2
MOEDAS FORTES, MOEDAS FRACAS - Mas de onde se origina o forte crédito das economias dominantes e a falta de crédito das dominadas? Esse é um assunto que só pode ser equacionado pela lei do desenvolvimento desigual e combinado do capital mundial. Há uma base material por trás de tudo isso. Aqueles que negam a existência da exploração da classe capitalista sobre a classe trabalhadora no interior das nações são os mesmos que negam a existência da exploração imperialista das economias dominantes sobre as dominadas no mercado internacional.
No inabalável desenvolvimento desigual e combinado do capital mundial só as poucas economias nacionais que são capazes de produzir capital na forma de mais-valia relativa emitem moeda de reserva internacional, quer dizer, livremente conversíveis (trocadas) no mercado de câmbio internacional. São economias dominantes, marcadas por uma organização industrial com elevadíssimos níveis de produtividade, de produção cientifica e tecnológica, etc.
Do outro lado do mundo, as economias dominadas – a grande maioria no mercado mundial – se caracterizam pela produção de capital com a predominância da mais-valia absoluta serão sempre barradas no reduzidíssimo clube dos conversíveis. Essas economias dominadas são marcadas por indústrias montadoras (modelo asiático), altamente poluidoras, propriedade de matrizes localizadas nas economias dominantes, agronegócio exportador parasitário e baixo produtor de alimentos para ao mercado interno, salário abaixo do valor da força de trabalho, prolongamento da jornada, trabalho infantil generalizado, campeãs mundiais de acidentes e mortes no trabalho, etc.
Tudo isso se encontra na origem de sua baixa produtividade nacional e uma moeda muito fraca na comparação internacional. É devido a essa base podre de produção de capital (e dos seus capitalistas) que as economias dominadas não possuem crédito e, conseqüentemente, moedas conversíveis no mercado internacional.
Como bem observado pelo repórter da Folha de S.Paulo, experimente encher o bolso só de reais e sair em viagem ao exterior. Talvez em Assunção, Santa Cruz de La Sierra e outras gigantes praças financeiras parecidas você consiga trocar sua valorizadissima moeda nacional por alguma coisa. Mas sempre é bom não confiar tanto nesta hipótese.
Todas as pessoas sabem disso. Quer dizer, na prática de viajante individual todo mundo sabe a diferença entre moeda conversível e moeda não conversível, o que é moeda de reserva e a que não é. Não precisa ser economista nem jornalista para saber. Mas quando se trata da prática das relações econômicas internacionais, sem uma boa teoria da moeda as pessoas têm muita dificuldade de entender o por quê dessa diferença. Começando pelos economistas, como bem o demonstra o ministro da Fazenda do Brasil.
1 “Dólar anêmico assombra a pauta do G-20 – Há uma torrente de capitais vagando pelo mundo [sic] em busca de resultados que sejam melhores do que na aplicação em dólares, que está beirando o zero... Maiores economias do mundo buscam uma posição conjunta capaz de conter e/ou reverter a desvalorização da moeda dos EUA. A anemia do dólar nem está, formalmente, na agenda da reunião de ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais do G-20... mas é o tema que assombra o hotel Fairmont, deslumbrante resort à beira do mar do Norte gelado.” ( Folha de S.Paulo, 07/11/2009)
2 Clovis Rossi – “O real, a moeda do século 21?” ( Folha de S.Paulo, 07/11/2009) .
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